Imagem do objeto A pertinência de se realizar ou não evocações nas reuniões mediúnicas, o medo da desobsessão, o receio de se realizar trabalhos mediúnicos no lar e as implicações pedagógicas de tudo isso foram algumas das questões abordadas na mesa-redonda sobre Práticas Mediúnicas, a Metodologia de Kardec e suas Perspectivas Pedagógicas.

O evento aconteceu na manhã do último dia 12 de setembro, na Uniespírito, em São Paulo, com a participação do tradutor das obras básicas do Espiritismo para o polonês, o doutor em Educação, professor Przemysław Grzybowski; a escritora e doutora em Educação, Dora Incontri; o mestre em Educação, Alessandro Bigheto; além da professora de Letras Cláudia Mota e da assistente social Regina Bonança, ambas pós-graduadas em Pedagogia Espírita.

Assistida por cerca de 70 pessoas, a mesa-redonda promovida pela ABPE foi aberta com a fala da professora Dora Incontri sobre a importância da racionalidade na prática mediúnica e o legado metodológico de Allan Kardec. Na oportunidade, ela explanou sobre a importância da desierarquização nos trabalhos dessa ordem e o papel do médium no controle das comunicações. Segundo Dora, Kardec teve e recomendou algumas atitudes fundamentais em relação à prática mediúnica: primeiro, não considerar os Espíritos como “reveladores predestinados” ou seja, não acatar cegamente como revelação tudo o que vem do mundo espiritual, porque os Espíritos nada mais são do que homens desencarnados e mesmo os bons, têm opiniões pessoais e condicionamentos; segundo, todo médium é falível e nenhum deve ser considerado guru ou idolatrado. Além disso, Kardec democratizou a mediunidade, na medida em que analisou-a como um fenômeno natural e cotidiano, que todos podem experimentar.

O professor Alessandro Bigheto contou suas experiências quando saía da adolescência e tinha a mediunidade desabrochando, sem encontrar guarida nos centros espíritas. Falou sobre a realização de reuniões mediúnicas em família, tendo em vista a necessidade dos jovens em trabalhar a mediunidade florescente. Já Cláudia Mota e Regina Bonança relataram a experiência no grupo mediúnico do qual participam, formado por membros da ABPE, tendo como um dos principais focos a interação pedagógica que se dá no contato mediúnico. O grupo trabalha com atas, com verificação de informações cruzadas (recebidas e percebidas por diferentes médiuns) e com discussões das mensagens e comunicações obtidas.

Explicitando melhor o assunto, Cláudia Mota assinala a mediunidade não como um processo de ajuda aos espíritos, mas de ajuda mútua entre encarnados e desencarnados. “Trata-se de uma dinâmica simbiótica, onde se aprende ao mesmo tempo em que se ensina”, destaca ela, evidenciando um dos princípios da Pedagogia Espírita aplicado à pratica mediúnica: o papel do educador como educando.

O professor Przemek contribuiu para a discussão com uma análise comparativa, informando as diferenças percebidas por ele entre as práticas mediúnicas adotadas nos grupos brasileiros e europeus. A partir da experiência por ter assistido a reuniões mediúnicas no Brasil e em grupos italianos, ingleses e franceses, além do próprio grupo que chegou a dirigir durante 5 anos na Polônia, Przemek reporta que os europeus primam por uma rigidez metodológica maior que a percebida nas práticas conduzidas por brasileiros, fruto também das diferentes percepções culturais sobre o Espiritismo.

A respeito de uma contribuição educativa do intercâmbio entre encarnados e desencarnados, ele citou a experiência do grupo polonês, que adotava o hábito de fazer perguntas de fundo moral aos espíritos comunicantes. “Os temas dessas perguntas eram propostos algumas vezes por nós mesmos e outras pelos espíritos, de modo que o objetivo era sempre a educação dos membros encarnados do grupo ou dos espíritos que assistiam à reunião”, explica.

Participou também da mesa Clóvis Portes, tradutor-intérprete de Przemek. Clóvis trabalha há mais de 20 anos com a divulgação do espiritismo fora do Brasil, sobretudo no antigo bloco leste (República Checa, Hungria) e em Cuba. Fez vários relatos interessantes, coadjuvado por Przemek, a respeito do que os espíritas dos países da Europa oriental sofreram de perseguições, sendo muitos presos e torturados, primeiro pelos nazistas e depois pelos comunistas. Em compensação, Clóvis se reportou ao espiritismo em Cuba, que está em pleno florescimento. Há muitos centros espíritas – alguns de caráter sincrético, com ritos africanos, mas outros já estudando e aplicando as obras de Kardec.

Dada a importância do tema para grupos mediúnicos em todo o Brasil, a ABPE se prepara para disponibilizar em breve a mesa-redonda em vídeo com link. Aguarde!